Olivier Turquet: “Não há melhor palavra para definir a direita que anti-humanismo”

22.12.2016 - Redacción Ecuador

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Olivier Turquet: “Não há melhor palavra para definir a direita que anti-humanismo”

O programa da Pressenza “En la Oreja” entrevistou o editor italiano Olivier Turquet, abaixo o áudio e a transcrição

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A Europa continua sendo local de intenso movimento político, com o crescimento da direita xenófoba, seja em termos de apoio popular seja em espaço oferecido às suas opiniões racistas e intolerantes através dos meios de comunicação.

 

No fim de semana passado aconteceram dois atos eleitorais que procuraremos decifrar um pouco. Um na Áustria, onde pela segunda vez se repetiu o segundo turno das eleições presidenciais: o candidato do partido verde venceu com uma vantagem de 7,8% sobre o concorrente do partido da ultradireita.

 

Por outro lado, a Itália consultou a população sobre a possibilidade de efetuar algumas alterações constitucionais, que possivelmente ofereceriam uma maior estabilidade política, num país que teve 64 governos diferentes nos 72 anos sucessivos à Segunda Guerra Mundial.

 

Está presente conosco, da cidade de Florença, berço do humanismo histórico, para falar sobre estes dois temas, Olivier Turquet, coordenador da redação italiana da Pressenza.

 

Olivier é autor, professor e editor com a própria editora, que publica livros sobre a paz, a não-violência e o humanismo universal.

 

Antes de falar no fenômeno austríaco, conte aos nossos ouvintes equatorianos, que talvez não atentassem aos acontecimentos italianos, quais foram as propostas do governo que queriam aprovar e os antecedentes destas propostas? E qual foi o resultado?

 

Antes de tudo, creio que seja necessário explicar que a Constituição italiana é uma Constituição relativamente nova, tem cerca de 70 anos e é filha do fim da Segunda Guerra Mundial. É contemporânea da Declaração Universal dos Direitos do Homem, com um ano de diferença, e do mesmo clima político e cultural daquela época. Um clima, que é de reconstrução nacional, europeia, mundial. Este é um fator muito importante. Existe uma parcela importante da sociedade italiana que, não obstante a posição política, considera muito esta Constituição porque a construíram juntos comunistas e democratas, republicanos e liberais.

A questão da mudança da constituição tem um longo processo. Esta é a terceira vez que procuraram alterá-la e a terceira vez que falharam. Neste caso, o plebiscito que se desenvolveu para confirmação da mudança, foi tratado por um seco “não”. Por um lado, houve uma participação popular muito importante, quase 70% dos eleitores, o que não aconteceu em outros recentes plebiscitos e o “não” venceu com quase 60% dos votos. Havia dois fatores, um foi o tema da mudança, que era muito confuso e misturava muitas coisas, mas aquele do qual o governo se referia, que dizia Matteo Renzi, era a questão da estabilidade. O povo disse que a estabilidade não vale a privação dos direitos políticos. Este é o tema mais importante.

A frente do não era muito variada, havia a direita, alguns do centro, a extrema esquerda, os humanistas, a Lista Civil, o movimento de Beppe Grillo. Praticamente, Renzi acabou por colocar-se contra todos e começou a personalizar muito essa reforma. Portanto, este “não” também foi um não para Renzi. No entanto, nós, como Pressenza demos muita informação sobre as questões específicas, porque nos pareceu importante informar as pessoas e que elas pudessem decidir pelo sim ou pelo não. Em nossos comentários destacamos que era necessário diferenciar a politização do plebiscito da decisão pelo sim ou não à mudança da Constituição. Uma Constituição muito progressista, uma das poucas no mundo que rejeita a guerra como uma ferramenta de resolução de conflitos. Este artigo não estava em discussão, era mais no contexto; o contexto era de simplificar, eliminar uma das duas Câmaras, havia vários temas. Tudo de forma autoritária, com restrição à liberdade e, além disso, muitos analistas diziam que se tratava daquilo que a Goldman Sachs havia pedido aos governos europeus para continuar com seus investimentos. Então, havia uma influência muito forte de empresas internacionais de especulação financeira para evitar que o povo pudesse decidir.

 

Podemos dizer que este resultado foi surpreendente, como aquele da Brexit, de Trump ou o não à paz na Colômbia? Ou foi o que se esperava?

 

Este resultado foi inesperado. Efetivamente foi feita muita pressão para o sim. Na verdade, até o final, Beppe Grillo que era a favor do “não”, no seu discurso dizia estar preocupado com a imensa divisão do país. No final, a imensa divisão do país não aconteceu, porque quase 60% haviam votado “não”. Nestas situações, normalmente, não há uma maioria assim expressiva. Alguns recordavam o referendo para confirmar o divórcio, que então venceu de modo evidente, 60 a 40. Surpreendeu alguns que de má fé queriam dizer de todas as maneiras que o “sim” havia vencido.

 

Agora ninguém mais se surpreende com nenhum resultado. Ampliando um pouco o olhar para toda a Europa e no país ao norte, a Áustria, nos parece que houve um crescimento popular muito grande a favor da direita, coisa que faz parte de um fenômeno crescente no velho continente. Como é a visão da Itália? O fenômeno é real ou é um efeito dos meios de comunicação?

 

Com certeza a mídia tem um ponto de vista que não é muito interessante, porque se olharmos os diversos fenômenos, vemos que existe um denominador comum que não é a direita tradicional. Não é que vencem os direitistas, vencem os que são antissistema. Na Itália hoje, o antissistema é representado pelo Movimento 5 Estrelas, no qual existe de tudo, no seu interior existem também os fascistas que declaram que a divisão entre direita e esquerda está superada. Nós não concordamos com isso, pensamos que a esquerda, com todos os erros, seja melhor que a direita. Não existe palavra melhor que o anti-humanismo para definir a direita, não servem outras palavras. Mas eles, com isso de misturar um pouco de tudo, de ter uma posição anti-imigração e ao mesmo tempo posições muito ecológicas, é uma mistura estranha. Mas certamente, eles mesmos não dizem ser um movimento de direita. E agora levam cerca de um terço dos votos na Itália. Mais de Marine Le Pen, menos que nesta polarização, o candidato de extrema direita austríaco. É preciso considerar que na Áustria tinha por trás toda a direita. Os dois partidos históricos que sempre venceram na Áustria perderam, e deixaram espaço a um estranho ecologista na esquerda, por assim dizer, e a este homem, Hofer, de extrema-direita, na direita.

Mas a verdade, antes de tudo, e não se fala mais nisso, os dois partidos que venciam sempre, os liberais e os sociais-democratas perderam as eleições. Isso é o antissistema. Isto é, dois elementos muito diferentes entre si, os ecologistas e os nazistas, eram os dois antissistemas. Eu diria que neste momento está vencendo a confusão, aquilo que grita mais alto é o antissistema. Voltando ao plebiscito, diria também que uma composição, que a mim não agrada, mas que reconheço no “não”, foi antissistema. Naquele momento, Renzi representava o sistema.

 

Traduzido do italiano por Elaine Tozetto

 

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