Só nós, o povo, podemos prever o futuro

29.11.2016 - David Andersson

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Só nós, o povo, podemos prever o futuro

A mídia foi pega de “surpresa” com a eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos. Todos tratam de compreender. O que aconteceu com o voto feminino? O voto latino? O número de abstenções, o maior nos últimos 20 anos? Obviamente que temos mais respostas que perguntas por parte dos especialistas e personalidades influentes. Estudam Estado por Estado, lugar por lugar, para poder averiguar o que saiu mal e porquê os resultados não coincidem com as pesquisas. Como se a democracia fosse um algoritmo que precisa ser ajustado para se obter os resultados de busca que eles queriam!

Muitos não conseguem ver o panorama maior. Este é um fenómeno mundial que só pode ser compreendido quando se observam as tendências gerais a nível global. Ou não nos lembramos que tivemos exactamente a mesma discussão há alguns meses com Brexit no Reino Unido e, novamente, na Colômbia com o referendo pelo processo de paz, onde o voto NÃO venceu com uma pequena margem e uma abstenção de 63%? Estes não são incidentes isolados. Vemos uma direcção muito clara em que a extrema direita está a substituir uma sistema global neoliberal em queda. O referendo na Hungria, as eleições nas Filipinas e na Argentina, e a situação no Brasil mostraram esta direcção de uma forma muito dramática. Na China, a situação também não é tão interessante, as pessoas são forçadas para uma sociedade de consumo em escala monumental, transformando o seu velho tecido social num modelo mais ocidental, criando as mesmas condições desesperadas e sem sentido que todos nós conhecemos muito bem no Ocidente.

Enfrentamos uma crise decisiva que poderia ser simplificado numa frase: Ou continuamos numa direcção violenta e discriminatória, com terríveis consequências para bilhões de pessoas e para o meio ambiente, ou vamos intencionalmente aproveitar esta oportunidade para iniciar a construção da primeira civilização humana. Vivemos agora num mundo interconectado; não há outra saída, nenhum país, cultura, religião chegará do exterior para resolver os problemas internos da nossas própria sociedade.

Não resolveremos ou mudaremos a direcção em que estamos com algumas boas ideias ou algum desenvolvimento tecnológico. Também não resolveremos o problema, deixando simplesmente o sistema morrer, concentrando-se exclusivamente em nós mesmos e desconectando-nos da sociedade. E certamente já sabemos que não funcionam as respostas remendadas do tipo humanitário em cada situação disfuncional, sem abordar a raiz do problema. Muitas pessoas nos EUA sentiram a necessidade urgente de reagir à eleição de Trump, saindo as ruas, protestando a sua retórica contra as mulheres, os latinos, muçulmanos e as pessoas LGBT. Mas isso não será suficiente.

Os nossos valores precisam mudar de interesses individuais para algo mais profundo, baseado no que significa ser humano. O que faço na minha vida diária que conecta com o fato de que eu seja um ser humano? Os animais falam, trabalham, têm famílias, vivem em sociedades, têm casas, jogam, e assim por diante. É claro que nem todas as espécies têm o mesmo nível de desenvolvimento, mas ninguém pode negar estas actividades, e o que quer dizer que nenhuma delas é especificamente humana.

O que me faz diferente das outras formas de vida? Na minha vida, o que é especificamente humano? Como é a minha relação com os outros? Esta é a reflexão que preciso ter comigo mesmo e a discussão que precisamos ter juntos. Isto é o que criará as condições para construir a primeira sociedade verdadeiramente humana. Este trabalho deve começar agora e ir além da cor da pele, sexo, orientação sexual, país de origem, classe – categorias que, na sua maioria, não são escolhidas. Muitas pessoas fizeram contribuições incríveis na nossa história, que poderiam ser estudadas e adaptadas à nossa situação presente. Não estamos a começar do zero. Deixamos as nossas cavernas e fizemos grandes progressos; não estamos no fim da história humana.

Ninguém vai sair sozinho dessa confusão. Precisamos ter a compreensão mínima que “o progresso de uns poucos termina no progresso de ninguém” (Silo, 2004). Se esta eleição nos EUA não se converte num sinal para que as pessoas “boas e progressistas” advirtam a urgente necessidade de construção de uma sociedade baseada num conjunto muito diferente de valores, com a aspiração a uma Nação Humana Universal, será talvez porque Donald Trump não apenas venceu as eleições, mas também as nossas mentes e nossos corações.

Traduzido por Djamila Andrade do inglês

Categorias: América do Norte, Opinião, Política
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